SUPERGIRL
- Lucas Fernandez
- 24 de jun.
- 6 min de leitura

Olha, vou te mandar a real sobre esse negócio que o Craig Gillespie tentou fazer com a nossa querida Kara Zor-El, porque se você entra no cinema achando que vai ver aquela vibe clássica da Era de Prata do Otto Binder ou o otimismo escapista que o Jeph Loeb injetou na personagem lá em Superman/Batman quando ela caiu na Terra e o Bruce Wayne já ficou todo paranoico desconfiando da garota, você vai quebrar a cara feio. O bicho pegou porque decidiram adaptar "Supergirl: Mulher de Amanhã", que é simplesmente a melhor obra do Tom King com a Bilquis Evely, e quem leu sabe que aquilo ali não é um gibi comum de herói de colante azul e capa vermelha salvando gatinho de árvore em National City. Aquilo é um faroeste existencialista puro, uma parada meio Jack Kirby misturada com Moebius e Alejandro Jodorowsky, só que quando transportaram isso pro live-action do novo DCU do James Gunn, parece que enfiaram o filtro do Zack Snyder de "Homem de Aço" e esqueceram de ligar as luzes do set. Eu saí da sessão com o cérebro fervendo porque o filme é um paradoxo temporal mais confuso que a cronologia da Donna Troy pré e pós-Crise nas Infinitas Terras. Por um lado, você tem a Milly Alcock que entrega tudo e mais um pouco. Ela pegou aquela casca grossa da Kara que viu Argo City virar poeira cósmica, aquela raiva acumulada de quem ficou presa no vácuo enquanto o primo Kal-El tava sendo criado por fazendeiros gentis no Kansas recebendo radiação de sol amarelo desde bebê, e canalizou isso de um jeito que faria o Dan Jurgens aplaudir de pé. A guria tá ranzinza, tá bebendo num bar de quinta categoria sob a luz de um sol vermelho pra conseguir esquecer os traumas da Zona Fantasma, e essa introdução é fantástica, remete direto àquela fase mais soturna dos Novos 52 onde a Supergirl era tão cheia de ódio que chegou a ser recrutada por um anel dos Lanternas Vermelhos do Atrocitus. O problema começa quando o roteiro da Ana Nogueira tenta equilibrar essa bizarrice cósmica com a jornada da Ruthye, a menina alienígena que quer vingança contra o Krem dos Colinas Amarelas por ter matado o pai dela. Essa dinâmica é "Bravura Indômita" no espaço, até aí beleza, igualzinho no encadernado. E quando o Krem atira aquela flecha envenenada com magia ou tecnologia desconhecida no Krypto, o Supercão, o cinema inteiro que tem um pingo de decência nerd prende o fôlego porque ninguém mexe com o melhor amigo do Homem de Aço, o canino que sobreviveu à destruição de Krypton e que já voou com a Legião dos Super-Heróis no século trinta e um. Mas aí o Gillespie se perde no próprio multiverso de referências cinematográficas. Ele quer que o filme seja um épico espacial grandioso, mas a fotografia tá tão lavada, tão cinzenta, que parece que pegaram a paleta de cores de "Mundo de Krypton" do John Byrne e jogaram num balde de lama. Cadê o psicodelismo cósmico que a Bilquis Evely desenhou? Cadê as cores vibrantes que parecem saídas de uma capa do Jim Starlin na Marvel dos anos setenta? O filme visualmente é um deserto estéril que lembra mais os piores momentos de Apokolips na animação do Bruce Timm do que a ópera espacial que deveria ser. E o pior é que eles tentam compensar essa falta de cor enfiando uma trilha sonora pop que claramente foi uma exigência de estúdio pra tentar emular o sucesso de "Guardiões da Galáxia", colocando a Kara pra ouvir umas músicas antigas da Terra num tocador de fita que ela provavelmente surrupiou da Fortaleza da Solidão. Não orna, cara. O tom fica mais bipolar que o Duas-Caras num dia de azar. Uma hora a gente tá discutindo a filosofia do determinismo biológico dos kryptonianos e a falha moral do Alto Conselho de Kandor antes do Brainiac encolher a cidade, e na cena seguinte tem uma piadinha de timing cômico que parece saída de um filler dos Jovens Titãs em Ação. E por falar em bizarrice, o que foi aquela aparição do Lobo? Eu entendo que o Jason Momoa nasceu pra fazer o Maioral, o último czarniano que caça recompensas pelo cosmos montado na sua moto espacial e ouvindo heavy metal, mas meter ele ali no meio da caçada ao Krem pareceu o mais puro suco de fanservice gratuito pra mostrar que o universo tá conectado, tipo quando a DC enfiava o Batman em todas as revistas dos anos noventa só pra inflar as vendas. O ritmo do filme vai pro espaço, literalmente, porque a gente sai de um momento dramático de reflexão sobre a destruição de uma cultura inteira pra ver o Lobo falando palavrão intergaláctico e trocando soco com criatura que parece rejeitada de um background de Lanterna Verde da fase do Geoff Johns. O vilão também, o Krem, interpretado pelo Matthias Schoenaerts, sofre daquela velha síndrome que o Malekith sofreu lá no universo vizinho: o cara nos quadrinhos é um desgraçado manipulador, um pirata espacial mesquinho que representa a banalidade do mal, mas na tela ele vira só um antagonista genérico com motivações rasas que apanha na hora certa pra história andar, nem de longe lembra o perigo cósmico que justificaria a Supergirl cruzar galáxias e enfrentar o equivalente a sóis moribundos pra derrotar. A edição das cenas de ação é outro ponto que me deixou com astigmatismo nerd. Parece que o editor teve um ataque de pânico toda vez que a Kara usava a visão de calor ou a supervelocidade. Em vez de termos planos abertos mostrando a grandiosidade dos poderes de uma criatura que rivaliza com o Monarca ou com o Apocalypse em termos de força bruta, a gente ganha uma sucessão de cortes rápidos de meio segundo que fariam o Michael Bay parecer um diretor de cinema de arte europeu. Você mal consegue ver o soco se conectando, parece que estão tentando esconder os defeitos do CGI, o que é bizarro porque o orçamento disso deve ter sido maior que o PIB de Bialya. Senti falta de uma escala de poder mais bem definida, aquela coisa que o Grant Morrison faz muito bem em "All-Star Superman", onde você entende perfeitamente a física teórica por trás de um ser que absorve radiação de fótons de uma estrela sequencial principal. Na tela, os poderes da Kara flutuam de acordo com a necessidade do roteiro: uma hora ela aguenta o tranco de uma ogiva planetária, na outra ela parece ter dificuldade pra quebrar uma parede de liga de Promethium. Mas nem tudo é tragédia grega na destruição de Krypton. A relação entre a Kara e a Ruthye ainda é o coração emocional que impede o filme de desmoronar como a Terra-Prime durante a Crise de Identidade. A atuação da Eve Ridley entrega exatamente aquela inocência corrompida pela tragédia, e a forma como a Supergirl enxerga nela o mesmo vazio que sentiu quando a sua própria mãe, Alura In-Ze, a colocou num foguete enquanto o chão se abria em lava verde é de cortar o coração de qualquer leitor de carteirinha que se preze. Os flashbacks de Argo City mantendo a redoma de vidro enquanto o planeta explodia ao redor são plasticamente bonitos, embora rápidos demais, lembrando muito a pegada trágica que o Mark Waid deu em "O Legado das Estrelas". É nesses momentos de quietude, quando a Kara tá limpando o sangue kryptoniano do rosto e olhando pro horizonte de um planeta desértico que lembra muito o visual de Rann ou de Thanagar antes da guerra, que você vê o filme que poderia ter sido se o diretor não estivesse tão preocupado em criar um blockbuster de transição pro Superman do Corenswet aparecer no pós-créditos. No fim das contas, essa iteração da Supergirl de 2026 funciona quase como um "Elseworlds" cinematográfico que acertou em cheio no elenco principal, mas errou a mão na hora de calibrar a atmosfera. É uma colcha de retalhos que tenta agradar o fã que sabe de cor o nome da capital de Krypton e o espectador casual que só quer ver uma loira forte quebrando alienígena na porrada. Se você for pro cinema esperando a profundidade psicológica de um roteiro do Alan Moore ou a piração cósmica do Jack Kirby, vai sair um pouco frustrado com a execução visual e o ritmo truncado do segundo ato. Mas se você for só pra ver a Milly Alcock encarnar a fúria e a dor de uma sobrevivente de um holocausto planetário com a imponência de uma deusa de New Genesis, aí o ingresso já vale a pena, mesmo que o Krypto passe metade do filme parecendo um render inacabado de videogame de última geração. É um passo meio vacilante para o novo amanhecer da DC nos cinemas, mas ainda assim, mostra que o James Gunn pelo menos tem a coragem de cavar fundo no catálogo do estúdio em vez de ficar repetindo a mesma fórmula feijão com arroz do Superman de Richard Donner ad eternum, o que por si só já merece um voto de confiança de quem passou os últimos dez anos sofrendo com reboots mal planejados e executivos que acham que o Darkseid é só um Thanos cinza.




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