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A Lenda de Ochi

  • Foto do escritor: Lucas Fernandez
    Lucas Fernandez
  • 29 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura

Sou o tipo de espectador que aprecia boas histórias de amizade improvável, especialmente aquelas que envolvem mundos fantásticos, criaturas enigmáticas e dilemas morais enraizados em mitologias fictícias. Por isso, fui assistir A Lenda de Ochi com genuína expectativa. A premissa prometia algo próximo a E.T. – O Extraterrestre, misturado com ecos de Princesa Mononoke e certa estética narrativa que remete a Wes Anderson — o que, convenhamos, é uma combinação promissora. No entanto, apesar da beleza plástica e da intenção poética evidente, o resultado final me pareceu um tanto desequilibrado.


A trama é relativamente simples: Yuri, uma jovem tímida e reclusa, vive em um vilarejo isolado na fictícia ilha de Carpathia. Desde pequena, aprendeu a temer os Ochi — criaturas florestais cercadas por uma aura de ameaça e ancestralidade violenta. Um dia, acompanhando seu pai em uma caçada, ela encontra um filhote de Ochi ferido. Movida por empatia, decide contrariar tudo o que lhe foi ensinado e embarca em uma jornada para devolver o pequeno ser à sua espécie. Durante essa travessia pela floresta, Yuri enfrenta perigos físicos e emocionais, ao mesmo tempo em que começa a desconstruir as verdades que lhe foram impostas.


O primeiro aspecto que merece destaque — positivamente — é o design de produção. A floresta onde se passa a maior parte da história é visualmente fascinante. O uso de cores frias, a composição dos cenários naturais e a iluminação cuidadosamente controlada colaboram para a criação de um ambiente ao mesmo tempo opressor e mágico. Há um sentimento de isolamento quase mítico que permeia toda a obra, algo que remete a contos antigos e lendas perdidas no tempo. Os Ochi, em especial, são criaturas com um design curioso e original — lembram vagamente primatas com traços arcaicos, mas sem nunca se tornarem caricatos. Não são esteticamente “fofos” à maneira hollywoodiana, o que considero um acerto.


No entanto, se por um lado a direção de arte e a ambientação são impecáveis, por outro, a trilha sonora e o design de som deixam bastante a desejar. Em muitos momentos, o som se torna intrusivo — a música é excessivamente alta, especialmente em cenas que pedem introspecção. Além disso, os sons emitidos pelos Ochi são agressivos, quase dissonantes, o que dificulta a conexão emocional do espectador com essas criaturas. Imagino que a intenção tenha sido reforçar sua alteridade, mas o efeito é mais afastador do que envolvente.


A protagonista Yuri é interpretada com delicadeza por uma jovem atriz que transmite bem a dualidade entre medo e curiosidade. Sua transformação ao longo da narrativa é gradual e coerente. A decisão de não torná-la uma “heroína clássica” fortalece o caráter íntimo da história. Ainda assim, a comunicação entre ela e os Ochi — que ocorre de forma quase mágica e inexplicada — soa forçada. Mesmo dentro de uma lógica de fantasia, seria desejável algum tipo de construção ou metáfora mais sólida que justificasse essa conexão repentina.


O roteiro, em sua essência, possui boas intenções, mas carece de profundidade. A rivalidade entre humanos e Ochi é citada diversas vezes, mas sua origem e complexidade nunca são plenamente exploradas. Trata-se de uma mitologia que parece existir apenas para sustentar o conflito imediato da protagonista, o que é uma pena. Uma obra como essa poderia se beneficiar enormemente de um worldbuilding mais robusto — algo que grandes universos de fantasia como O Senhor dos Anéis ou Avatar: A Lenda de Aang executam com maestria.


O ritmo do filme é outro ponto fraco. Há longos trechos contemplativos que, apesar de belos visualmente, não avançam a narrativa de forma significativa. A tentativa de criar uma atmosfera poética acaba, em certos momentos, soando como mera estagnação. O terceiro ato, por sua vez, apressa-se em resolver conflitos de forma abrupta e melodramática. O final busca uma resolução emocional, mas não consegue alcançar o impacto desejado justamente por não ter construído com paciência suficiente os alicerces narrativos que o sustentariam.


Não posso deixar de mencionar que, apesar de tudo, o filme possui méritos. Sua mensagem central — sobre empatia, coragem e a necessidade de rever preconceitos herdados — é universal e relevante. Em tempos de polarizações e discursos simplistas, uma história que propõe a escuta e o entendimento do outro, especialmente do “outro” marginalizado, merece atenção. Além disso, há cenas pontuais de beleza tocante, como quando Yuri e o filhote Ochi observam o céu noturno em silêncio, ou quando ela decide enfrentar a própria comunidade para proteger aquilo que aprendeu a amar.


Em resumo, A Lenda de Ochi é um filme que tenta ser uma parábola ecológica e emocional, com ecos de grandes obras do cinema fantástico, mas que tropeça em aspectos técnicos e estruturais. É uma obra que se destaca mais pela forma do que pelo conteúdo — uma experiência estética interessante, mas narrativamente limitada. Ainda assim, não a considero descartável. Para aqueles que apreciam fábulas visuais e estão dispostos a perdoar seus defeitos em nome da sensibilidade, pode haver aqui um pequeno tesouro escondido entre as árvores de Carpathia.

 
 
 

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