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Bruce Springsteen – Salve-me do Desconhecido (2025)

  • Foto do escritor: Lucas Fernandez
    Lucas Fernandez
  • 23 de out. de 2025
  • 4 min de leitura


Resenha por João Amaral (ou João Flecha-Certeira, se preferir kkkkkkkkkk)


Born in the U.S.A. é tanto o retrato de um Estados Unidos que não costuma ser vendido em filmes quanto uma crítica ao famoso “american way of life” tão presente em produções e sitcoms. Isso é fato. O que eu não sabia — sequer imaginava — é que Bruce Springsteen, ou, como seus colegas do meio musical o chamam, “The Boss” (apelido adquirido em 1974, quando assumiu a tarefa de coletar o pagamento noturno da banda e distribuí-lo entre os companheiros), é de fato um operário da música.

E essa essência é mostrada de forma visceral em Bruce Springsteen – Salve-me do Desconhecido (Bruce Springsteen – Deliver Me from Nowhere, 2025), baseado no livro Deliver Me from Nowhere: The Making of Bruce Springsteen’s Nebraska, do jornalista Warren Zanes, e habilmente roteirizado e dirigido por Scott Cooper (O Pálido Olho Azul, 2023; Coração Louco, 2009, entre outros).

É um filme apaixonado, intenso, realista e melancólico. Saí do cinema desnorteado, com os eventos do filme reverberando na mente. Jeremy Allen White (O Urso, 2022) interpreta um Bruce Springsteen em um momento muito difícil da vida. Após a imensa turnê do disco The River (1980–81), que lançou grandioso hit Hungry Heart (que amo cantar com minha banda de covers, a Mr. Gori) e que o alçou ao “dream team” dos músicos americanos, veio a difícil tarefa de criar um sucessor à altura.

O público é gentilmente convidado a acompanhar os eventos pessoais e profissionais que culminaram na criação do álbum intimista Nebraska (1982) — cujas músicas foram gravadas em um cassete de quatro canais, no quarto de sua casa em Freehold, New Jersey, sua terra natal — bem como as principais canções que resultariam no avassalador Born in the U.S.A. (1984). A partir daí, somos transportados para o drama pessoal do cantor enquanto ele trabalha nessas composições intensas, introspectivas e, de certa forma, sombrias.

Vemos sua difícil relação com o pai, Douglas Springsteen (interpretado com habilidade por Stephen Graham, O Chef, 2021; Snatch, 2000), ainda pequeno, em 1955, quando é vivido por Matthew Anthony Pellicano Jr. (GMA3: What You Need to Know, 2023). Também acompanhamos a doce e protetora relação com sua mãe, Adele, interpretada por Gaby Hoffmann (Campo dos Sonhos, 1989).

Talvez o aspecto mais intenso do filme seja a forma como tudo é retratado — de maneira natural, quase mundana, sem excessos. Um retrato cru da vida real. Springsteen trabalha em suas canções como um artesão, um operário de fábrica: com intensidade, buscando a perfeição em cada detalhe e tentando impedir que as dificuldades do “expediente” respinguem em suas relações pessoais, como com Faye, seu interesse amoroso, belamente interpretada por Odessa Young (Black Rabbit, 2025). Dessa relação, vemos o Springsteen mais humano, que sofre de depressão, mas tenta seguir em frente — ainda que sua falta de compreensão e tratamento cobre um preço alto.

Jay Buchanan, vocalista da fabulosa banda Rival Sons, também participa do filme como cantor de uma banda que se apresenta em um bar local, que conta ainda com os irmãos Jake e Sam Kiszka, da Greta Van Fleet. Eles também colaboram com a trilha sonora, ao lado do próprio Jeremy Allen White, que emula magistralmente a voz e os trejeitos de Springsteen em diversos momentos, tanto que chegamos a esquecer das pequenas diferenças físicas que tanto o ator quanto o cantor possuem entre si.

A fotografia de Masanobu Takayanagi (Swan Song, 2021) merece destaque. Tanto pela emulação do período entre 1981 e 1982 — com aquele “cheirinho de Kodak” — quanto pelos momentos da juventude do cantor, em 1955, filmados em preto e branco, com saturação e granulação típicas de fotos da época. Tudo nos transporta para uma era que só quem viveu sabe como foi, e que aqui é brilhantemente recriada.

Outro grande mérito do filme está em mostrar a dedicação de seu produtor e empresário, Jon Landau, cuja relação com Springsteen remonta a 1974, quando ainda era apenas jornalista. Magistralmente interpretado por Jeremy Strong (O Aprendiz, 2024), Landau é quem muitas vezes sustenta o cantor emocionalmente e garante que suas ideias sejam seguidas à risca. Um misto de amigo, figura paterna, psicólogo e conselheiro para todas as horas, ele frequentemente traduz para o público o que o tímido e introspectivo Springsteen sente e enfrenta.

No site NJArts, o próprio Springsteen falou sobre o amigo:

“Quando olhei para baixo e vi o fundo do poço, Jon me ajudou a encontrar ajuda que me reorientaria e mudaria o curso da minha vida. Tenho uma grande dívida com meu amigo por sua gentileza, generosidade e amor. Ele também fez um ótimo trabalho de gestão.”

Sem falsa modéstia, o filme deixa clara essa relação.

Springsteen – Salve-me do Desconhecido é talvez a melhor cinebiografia já feita sobre um artista, e seu mérito está em retratar um período importante da vida de uma celebridade de maneira crua e verdadeira — sem enfeites, plumas ou paetês. Diferente de filmes como Bohemian Rhapsody (2018), Rocketman (2019) ou Elvis (2022), aqui não há alegorias, fantasias ou artifícios de roteiro que distorcem fatos: este filme nos transporta, como uma máquina do tempo, para um momento incrível e difícil da vida de um dos maiores músicos dos séculos XX e XXI — que ainda está em plena atividade, produzindo, tocando, criando e, principalmente, se tratando.

Springsteen – Salve-me do Desconhecido estreia nos melhores cinemas em 30 de outubro de 2025 e é especialmente indicado para quem realmente presta atenção em cada detalhe de um filme.

 
 
 

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