Crítica: Grande Sertão
- Lucas Fernandez
- 29 de mai. de 2024
- 2 min de leitura

Henrique Zimmerer
O que fazer quando se tem uma das maiores histórias criadas no nosso Brasil? Construída por um dos — senão o maior — poeta do nosso país, Guimarães Rosa.
O filme Grande Sertão, dirigido por Guel Arraes (O Alto da Compadecida) e com o roteiro dele e de Jorge Furtado, nos mostra muito bem o que fazer!
Entramos aqui em um Sertão distópico onde Riobaldo (Caio Blat), um homem criado nesse mundo, nos conta sua história, de como saiu de professor para criminoso ou revolucionário (fica ao seu critério interpretar as escolhas do nosso protagonista). Em meio ao caos de uma guerra sem fim entre a polícia e a população marginalizada, ele precisa decidir o que fará diante de suas paixões, amizades e ideais.
Ele conhece Diadorim (Luisa Arraes), um jovem que ele reconhece da sua antiga infância e, para ajudá-lo, se envolve na guerra que assola o povo. Dividido entre esse grande amigo pelo qual tem sentimentos confusos e o coronel da polícia Zé Bebelo (Luis Miranda), por qual nutre certa admiração, ele precisa aprender a lidar com aquelas pessoas que só conhecem a violência.
Em meio a grandes sacrifícios e perdas, vemos o sofrimento criado pela guerra, pela desigualdade e pela corrupção humana.
Seguimos assim aprendendo e lidando com críticas sociais de todos os tipos que até hoje se mantêm atuais. Corrupção, violência, marginalização, preconceito, Guimarães Rosa não deixou nada passar e Arraes os representa muito bem, até mesmo os dilemas relacionados à sexualidade e gênero, que são tão bem explorados na obra.
Guel Arraes mostra com esse projeto que, diferente da maior parte das produções brasileiras, falhando em imitar fórmulas e diálogos de Hollywood, abraçar a forma de se fazer arte brasileira eleva o nível além do que se espera. Já tendo consagrado seu estilo com O Alto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro, o diretor acerta o tom e a estética mais uma vez. Sem ter medo de trazer toda a poesia de Guimarães Rosa e a intensidade do teatro brasileiro, ele nos guia por um filme altamente poético, desde as falas até as interações dos personagens. Com diálogos que rimam, trilha sonora conectada e cenas altamente teatrais, Arraes acerta o tom para que tudo fique perfeito.
Não espere aqui um filme de ação hollywoodiana com diálogos realistas, mas pouco profundos. Aqui os personagens representam toda a alma poética de Guimarães Rosa, rimando em uma harmonia e profundidade fantásticas.
Além dos atores protagonistas, que entregaram tudo na atuação, temos outros personagens com um nível tão alto quanto. Desde Rodrigo Lombardi como Joca Ramiro a Mariana Nunes como Otacília. Até mesmo Eduardo Sterblitch surpreende em uma atuação visceral para representar o macabro Hermógenes, muito diferente do seu último papel em “Dois é demais em Orlando”.
Grande Sertão é um filme brasileiro em todas as formas: estilo, história, personagens, criação, execução. Uma obra grandiosa sem medo de mostrar sua forma. Um filme que vale a pena apreciar nas grandes telas de cinema para ser absorvido pelos seus personagens e enredo.
Grande Sertão estreia 6 de Junho e com certeza irá se tornar um marco do cinema nacional, por isso, não perca!




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