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(Des)controle

  • Foto do escritor: Lucas Fernandez
    Lucas Fernandez
  • 5 de fev.
  • 2 min de leitura

Assistir a (Des)controle é entrar em contato com um tipo de desconforto silencioso, daqueles que não explodem em grandes cenas, mas vão se acumulando aos poucos, até ficar impossível ignorar. O filme acompanha Kátia Klein, uma mulher de meia-idade que parece ter a vida organizada — carreira, família, estabilidade —, mas que carrega fissuras internas que nunca foram totalmente resolvidas. E é justamente aí que o longa encontra sua força.


O roteiro trata o alcoolismo não como um choque isolado, mas como um processo. A recaída da personagem após anos de sobriedade não surge como um “erro”, e sim como consequência de pressões emocionais, frustrações acumuladas e da solidão que muitas mulheres vivem mesmo cercadas de pessoas. É um retrato dolorosamente honesto, porque não busca culpados fáceis nem soluções rápidas.


Carolina Dieckmann entrega uma atuação muito madura. Sua Kátia não pede desculpas por existir, nem tenta se justificar o tempo todo. Há um cansaço constante em seu olhar, uma exaustão emocional que transparece mesmo nos momentos mais banais. O filme acerta ao mostrar que o sofrimento nem sempre é escandaloso; muitas vezes ele é silencioso, educado, socialmente funcional — até deixar de ser.


Outro mérito de (Des)controle é como ele aborda as relações familiares. Pais, ex-marido e pessoas próximas orbitam a protagonista tentando ajudar, mas também revelando suas próprias limitações. Ninguém sabe exatamente o que fazer, e isso torna tudo mais real. A sensação é de que todos estão improvisando, tentando amar da melhor forma possível, mesmo errando. Como na vida.


A direção opta por um tom que mistura drama e leveza, o que funciona em vários momentos, especialmente para tornar o filme mais humano e menos sufocante. Ainda assim, essa escolha nem sempre se sustenta. Há situações que pediriam mais profundidade emocional, mas são suavizadas, como se o filme tivesse receio de ir fundo demais. Isso pode causar uma certa irregularidade no ritmo, especialmente para quem espera um mergulho mais intenso no tema.


Mesmo com essas oscilações, (Des)controle se destaca por sua empatia. O filme não quer ensinar lições nem oferecer respostas prontas. Ele observa, escuta e acompanha sua personagem com respeito. Fala sobre controle, sim, mas principalmente sobre a ilusão de que damos conta de tudo sozinhas — da carreira, da família, das emoções, da própria saúde mental.


No fim, é um filme que permanece depois que acaba. Não pelo impacto imediato, mas pelas perguntas que deixa. Até que ponto estamos realmente bem? Quantas vezes seguimos funcionando no automático, ignorando sinais claros de exaustão? (Des)controle não julga, não acusa — apenas convida à reflexão. E talvez seja exatamente isso que o torne tão necessário.

 
 
 

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