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EXIT 8

  • Foto do escritor: Lucas Fernandez
    Lucas Fernandez
  • 30 de abr.
  • 2 min de leitura

Tem um tipo de desconforto que é muito específico: quando um lugar comum começa a parecer errado. Sabe aquele corredor vazio de hotel de madrugada? Ou um escritório depois que todo mundo foi embora? Esse sentimento — que muita gente chama de “espaço liminar” — é basicamente o que sustenta EXIT 8 do começo ao fim.

Dirigido por Genki Kawamura (que já trabalhou em coisas visualmente marcantes como Your Name), o filme faz algo que parecia difícil: pega um indie japonês super simples de 2023 e transforma numa experiência sufocante, psicológica e, em vários momentos, bem existencial.


A história é direta ao ponto. A gente acompanha um cara — interpretado pelo Kazunari Ninomiya — que simplesmente está preso em um corredor de metrô. Tudo ali é repetitivo: azulejo branco, luz fluorescente irritante e uma placa apontando pra “Saída 8”.

A regra é simples — e desesperadora:se ele não percebe nenhuma anomalia, volta pro começo se percebe algo estranho e recua, avança.

É isso. E o filme transforma essa ideia básica num pesadelo. Porque, no fundo, não é sobre sair do corredor — é sobre não enlouquecer tentando.

Tem uma vibe meio mito de Sísifo mesmo, só que aqui o peso não é uma pedra… é a própria sanidade.


Essa era a grande dúvida. O jogo original basicamente é isso: andar e reparar em pequenas diferenças. Um pôster mudou, uma pessoa tá “errada”, algo não encaixa.

O Kawamura acerta justamente por não tentar inventar demais. Ele não expande o mundo — ele aprofunda o desconforto.

A câmera ajuda muito nisso. Tem momentos em primeira pessoa que te colocam dentro da cabeça do protagonista. Você começa a fazer parte do jogo: fica procurando erro em tudo.

E aí o filme te pega.

Porque você começa a duvidar do que viu.“Isso tava assim antes?”“Ou eu tô viajando?”

O som também é essencial. Quase não tem trilha. É só passo, silêncio e aquele zumbido irritante da luz. Quando algo muda, não vem susto fácil — vem um incômodo estranho, daqueles que ficam.


O mais interessante é que o filme vai além da proposta do jogo.

O corredor vira quase um símbolo. Não é só um lugar — é uma ideia. Um purgatório moderno, uma rotina sem sentido, ou até a mente do próprio personagem.

Aos poucos, o filme começa a sugerir que ele não está preso ali por acaso. Tem culpa, tem trauma, tem coisa mal resolvida.

E aí a regra muda de significado:não ignorar anomalias vira, basicamente, não fugir dos próprios problemas.

A atuação do Ninomiya segura muito isso. Ele fala pouco, mas você vê o desgaste

EXIT 8 não é pra todo mundo. Se você espera um terror mais direto, cheio de susto ou explicação, provavelmente não vai curtir.

Ele é repetitivo de propósito. E isso pode cansar.

Mas se você entra na proposta, funciona muito bem.

No fim, é uma das adaptações de videogame mais inteligentes dos últimos tempos. Pegou um conceito mínimo e transformou numa experiência que fica na cabeça.

Não é o tipo de filme que grita.É o tipo que fica sussurrando… mesmo depois que acaba.

 
 
 

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