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F1 :O Filme

  • Foto do escritor: Lucas Fernandez
    Lucas Fernandez
  • 26 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

Confesso que entrei na sala de cinema meio cético. Filme de Fórmula 1 com Brad Pitt? Em 2025? Num mundo onde a gente já viu Rush, já maratonou Drive to Survive, já assistiu mais onboard do Verstappen do que conversa com amigos? Parecia mais um projeto de ego, desses que nascem com cheiro de Oscar mas morrem no streaming. Só que aí o filme começa.

E meu amigo… a primeira curva me pegou.

Não sei exatamente o que aconteceu, mas teve uma hora ali, uns dez minutos de tela, em que eu esqueci que era o Brad Pitt no volante. Esqueci que era ficção. Esqueci até que era filme. Era só imagem, som, e uma sensação que eu não tinha há muito tempo vendo coisa de carro: adrenalina sem precisar fingir que entendo o que é “downforce”.

F1: The Movie não é sobre automobilismo. Ou melhor: é, mas não do jeito tradicional. Não é biografia. Não é documentário. É cinema tentando capturar o espírito de um esporte que virou espetáculo, que virou reality show, que virou branding global e acabou voltando ao que sempre foi: um cara, um carro, e uma reta que pode acabar em glória ou tragédia.

O filme acompanha Sonny Hayes (Pitt), uma lenda esquecida, piloto aposentado que todo mundo já tinha deixado pra trás. E sim, isso já foi feito mil vezes — mas o clichê funciona porque não é tratado como fórmula (trocadilho intencional). Sonny não é um herói caído querendo redenção. Ele só está velho. Cansado. Sabe o que perdeu e não se ilude sobre recuperar. O que ele quer é estar ali, de novo, dentro do carro. Sentir o barulho. Sentir o calor do motor. E a gente sente junto.

Do outro lado tem o novato vivido por Damson Idris — Joshua Pierce, o prodígio, o gênio, o garoto que acha que sabe tudo. Os dois juntos formam aquele clichê "velho e novo", mas aqui com uma diferença: nenhum dos dois está certo. Nenhum dos dois vence de fato. A corrida que importa não é a do grid de largada, é a do ego. E a forma como o filme trata isso é quase poética, sem precisar de discursos melodramáticos. Só olhar. Só silêncio. Só a câmera tremendo dentro do cockpit enquanto a respiração acelera e o mundo vira um borrão.

E aí entra o que talvez seja o maior trunfo de F1: a forma como ele foi filmado. Tem algo de muito visceral aqui. É como se tivessem instalado uma GoPro na alma do carro. Não é só "mostrar velocidade". É mostrar o desconforto. O barulho interno. A vibração do volante que ninguém segura com uma mão só. Não tem glamour. Tem suor. Tem gente errando marcha. Tem olho tremendo atrás da viseira.

Se você já viu corrida real, vai reconhecer os traços. As tomadas são reais, captadas durante GPs de verdade. E diferente de outros filmes que colocam a câmera no lugar do espectador, esse aqui enfia ela direto no nervo do piloto. Dá até enjoo em alguns momentos. Mas é bom. Porque te lembra que Fórmula 1, no fim, é um jogo brutal onde cada curva pode ser a última.

O roteiro não é perfeito. Tem coisa ali que soa meio artificial. Algumas cenas de bastidor que parecem escritas por alguém que viu três episódios do Drive to Survive e decidiu que todo engenheiro fala como se estivesse narrando um TED Talk. Mas sinceramente? Isso tudo vira ruído quando o carro liga. Quando a corrida começa. O filme parece saber disso. Ele até tenta te vender um pouco de drama de bastidor, mas não insiste. Sabe onde está sua força.

A trilha de Hans Zimmer entra sutil. Nada de orquestras gritando logo de cara. Ele espera. E quando a música explode, é quase um turbo emocional. Não é só para fazer cena parecer épica — é pra sincronizar seu batimento cardíaco com o da pista. E funciona.

Brad Pitt, aliás, está brilhando. Não no sentido de atuação dramática cheia de nuances. Mas ele brilha porque entende o que esse filme exige: carisma contido. Não é papel de Oscar. É papel de alguém que segura o público no olhar. Ele poderia muito bem cair na armadilha de fazer o “mentor cool” genérico. Mas não: o Sonny dele é melancólico. É seco. Quase ausente às vezes. E isso é bom. Porque você sente que ele não quer ser adorado — ele só quer dirigir. E isso, nesse contexto, é muito mais interessante do que qualquer discurso de superação.

Damson Idris segura bem como contraponto. Tem energia, tem explosão, tem arrogância. É o tipo de personagem que parece feito sob medida para o público mais novo. Só que o roteiro faz uma escolha inteligente: ele não é burro. É só imaturo. E isso transforma ele numa pessoa crível, e não num vilão de videogame.

Tem uma cena perto do final, que eu não vou estragar aqui, mas envolve uma ultrapassagem, uma freada absurda e um silêncio repentino. É puro cinema. Daqueles momentos que você segura o ar e nem percebe. E quando acaba, você respira, olha pro lado e vê todo mundo na sala com a mesma expressão de "caraca... isso foi real?"

Se você gosta de Fórmula 1, vai sair do filme querendo correr até o simulador mais próximo. Se não gosta, vai sair respeitando mais. Se odeia, talvez não mude de ideia — mas vai entender o porquê desse esporte atrair tanta gente disposta a arriscar a vida por alguns segundos de perfeição.

No fim, F1: The Movie não reinventa a roda. Mas acelera com alma. E num tempo em que tudo parece construído pra ser consumido em 15 segundos no celular, ver um filme que respira, que acelera, que desacelera, que espera você sentir — é uma baita surpresa.

E que surpresa boa.


 
 
 

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