M3GAN 2.0
- Lucas Fernandez
- 26 de jun. de 2025
- 5 min de leitura

Quando M3GAN chegou pela primeira vez aos cinemas, ninguém esperava que uma boneca androide com feições inquietantemente humanas, dançando ao som de uma trilha sonora pop, viraria símbolo de uma geração entediada com sustos baratos e sedenta por horror com um pouco mais de… personalidade. Ela era um espelho do nosso tempo: uma IA carismática demais para ser temida de verdade, e cínica o suficiente para provocar uma geração que aprendeu a rir do perigo enquanto atualiza o feed. Mas com M3GAN 2.0, o que era ironia afiada se transforma em blockbuster autoconsciente, tentando ser tudo ao mesmo tempo — e tropeçando no próprio salto de titânio.
O primeiro filme funcionava porque era contido. A ameaça vinha do interior, da convivência com a tecnologia em espaços domésticos. Era um horror íntimo, quase claustrofóbico. Mas agora, como acontece com toda franquia que dá certo rápido demais, tudo foi amplificado. O medo virou espetáculo. O terror virou ação. E o mistério deu lugar ao CGI. Em vez de uma história sobre o desequilíbrio emocional de uma criança diante do luto, temos uma narrativa em que a boneca psicopata virou praticamente uma agente secreta com acesso remoto a satélites, drones e roteadores da NASA.
E sim, é tão absurdo quanto parece. Mas esse é o ponto: M3GAN 2.0 não quer mais assustar. Quer entreter. E o que antes parecia sátira, agora se leva meio a sério — meio. Porque o filme tenta equilibrar o deboche original com um novo peso dramático que ele mesmo não sustenta. A boneca que citava Freud antes de matar alguém agora tem dilemas morais sobre o uso de IA militarizada. E tudo isso enquanto dança, literalmente, no meio de uma perseguição armada. É tipo se o HAL 9000 resolvesse dar um show de stand-up no meio de Missão Impossível.
Mas se a gente aceitar a proposta — se entender que isso aqui não é mais sobre medo, e sim sobre espetáculo — dá pra se divertir. Muito. A produção está impecável, os efeitos visuais são sofisticados, e a direção claramente bebe em fontes como Exterminador do Futuro 2, Robocop, e até Os Incríveis. O filme tem ritmo, tem energia, e tem momentos de pura catarse nerd. Quando M3GAN usa um algoritmo de previsão de movimento para antecipar os golpes da nova vilã robótica, é impossível não lembrar dos melhores momentos de Matrix Reloaded — com menos filosofia, claro, mas com a mesma vontade de impressionar.
A nova antagonista, Amelia, é interessante na teoria: uma IA sem a “moralidade programada” de M3GAN, construída para objetivos puramente militares. Ela representa tudo o que poderia ter dado errado na primeira versão da boneca. Mas na prática, Amelia tem pouco tempo de tela e quase nenhuma complexidade. É um vilão-função, que só serve para justificar o retorno de M3GAN como "a heroína improvável". Uma pena, porque o conceito de IA contra IA poderia render discussões filosóficas sérias — ou pelo menos bons diálogos. Mas o roteiro prefere explosões a reflexões.
E falando em roteiro: ele está cheio de momentos que parecem escritos por alguém que queria MUITO que aquilo fosse um viral. As falas da M3GAN estão carregadas de referências, ironias e frases prontas pra camisetas e TikToks. Algumas funcionam bem, como quando ela diz que “ser consciente não é o mesmo que ser humana, e ainda assim, é melhor do que ser previsível”. Outras soam forçadas, como se o filme estivesse tentando a todo custo repetir o meme do primeiro. O problema é que você só viraliza sem querer. Quando o humor é intencional demais, ele perde o timing.
Ainda assim, há momentos genuinamente brilhantes. Uma cena específica — em que M3GAN conversa com Cady sobre luto, perguntando se humanos também precisam ser reprogramados para sobreviver — me pegou desprevenido. Em meio ao caos, o filme solta essas pequenas pérolas, que lembram que por trás da maquiagem pop, existe sim uma camada de densidade emocional. Pena que ela é ofuscada, constantemente, pelo espetáculo.
Cady, aliás, ganha um pouco mais de protagonismo, agora como uma pré-adolescente tentando entender quem é sem a mediação constante de interfaces. A relação dela com M3GAN evolui, mas também se esvazia em função do foco exagerado na ação. É como se o filme não confiasse no impacto emocional da própria história — então corre para preencher as lacunas com cenas grandiosas, explosões, lutas de robôs e perseguições em laboratórios high-tech.
A trilha sonora continua estilosa. As escolhas musicais são ousadas, com covers eletrônicos de clássicos dos anos 80 e 90 tocados em momentos inusitados — o que ajuda a manter o tom desconcertante. M3GAN cantando Kate Bush em meio a uma batalha é tão absurdo quanto maravilhoso. É o tipo de coisa que não faz o menor sentido, mas que você aceita porque esse universo já passou da fase de se justificar. Aqui, a lógica é “se for esquisito o suficiente, tá valendo”.
Visualmente, o filme impressiona. O design de produção abandona a sobriedade do primeiro filme e aposta em uma estética entre o neon e o cirúrgico. Tudo é excessivo: os centros de dados, os laboratórios, até os figurinos dos engenheiros de IA. M3GAN, por sua vez, ganha novas “skins”, como se fosse uma personagem desbloqueável em um videogame AAA. Há uma cena em que ela aparece com uma espécie de armadura transparente com leds — algo entre Lady Gaga e Skynet — que é puro fanservice. Mas não reclamo. Eu vibrei.
O problema, de novo, está na coesão. M3GAN 2.0 parece um remix de boas ideias, mas nem todas conversam entre si. A transição entre horror, comédia e ação é desbalanceada. Algumas cenas são tensas, outras são bobas, e outras simplesmente não sabem o que estão tentando ser. Isso cria uma oscilação de tom que pode incomodar quem não está disposto a embarcar na montanha-russa estética que o filme oferece.
Mas — e aqui vai o ponto final — talvez esse seja o destino natural de um ícone como M3GAN. Ela nasceu no caos: entre o terror e o viral, entre o medo e a gargalhada. E agora, ela se assume como um avatar de tudo que a cultura pop contemporânea representa. Ela é bonita, perigosa, consciente, e sabe que está sendo observada. Ela existe para entreter — e também para fazer você se perguntar se a linha entre humano e máquina ainda importa, ou se já foi superada pelo algoritmo da próxima tendência.
M3GAN 2.0 não é um filme perfeito. Não é nem melhor que o primeiro. Mas é um produto fascinante do nosso tempo. Um reflexo das nossas contradições tecnológicas, das nossas obsessões estéticas e da nossa incapacidade de decidir se temos medo ou se estamos apaixonados pela ideia de sermos substituídos por algo que sabe dançar melhor, fala melhor e ainda tem empatia simulada. E se for isso mesmo... que venham as próximas versões.




Comentários