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Maníaco do True Crime

  • Foto do escritor: Lucas Fernandez
    Lucas Fernandez
  • 17 de out. de 2024
  • 3 min de leitura

Por: Luca Creido A onda recente de exploração do “true crime”, gênero que retrata crimes reais, gerou nos últimos anos grandes obras nas telas de cinema e streaming. "Elize Matsunaga: Era uma Vez um Crime" (2021); "The Ted Bundy Tapes" (2019) e "The Jinx: The Life and Deaths of Robert Durst" (2015) são exemplos claros do impacto que o gênero possui na reconstrução da história de um povo pela ótica dos seus principais criminosos, da apuração dos delitos e de como eles atingiram a sociedade.


 Não é algo novo, “Helter Skelter: The True Story of The Manson Murders”, um dos marcos do gênero, é um livro de 1974, tendo como um dos autores Vincent Bugliosi, que foi promotor no julgamento de Charles Manson. No entanto, as produções estão a cada dia mais marcantes pela sensação de veracidade que passam. Com o avanço da psicologia forense, dos meios recentes de reconstrução de locais de homicídio e com a midialização da investigação, o “true crime” se consolidou como uma forma de apresentar uma visão aprofundada dos eventos, dos criminosos, das vítimas envolvidas e da apuração criminal. É um gênero no qual a imitação da realidade se mostra extremamente importante.

E talvez este seja o maior problema do filme “Maníaco do Parque”: a falta da sensação de autenticidade ao longo do filme.


O longa mergulha na história do motoboy Francisco (Silvero Pereira), que foi condenado no fim da década de 1990 por atacar 21 mulheres, escondendo os corpos de 10 delas no Parque do Estado, em São Paulo. A história do assassino e dos crimes é desvelada pela jovem Elena (Giovanna Grigio), uma repórter que vê nos acontecimentos a possibilidade de ganhar notoriedade em sua carreira.


No decorrer dos longos minutos que perpassam o filme, Elena percebe a opressão social do trabalho feminino em uma sociedade marcada fortemente pelo machismo, no filme revelado de forma escancarada  – assim como muitas vezes é em nossa sociedade.

Elena é um personagem fictício, assim como a maioria dos personagens apresentados no longa. Isso não é um problema (nem para o “true crime”). Todavia, em prol de uma argumentação ativista, Giovanna Grigio e grande parte do elenco sofrem nas mãos de um roteiro extremamente didático. Não há nada a se perguntar. Tudo se revela na forma como ela é olhada, como é tocada, como os anseios profissionais são revelados e, mais importante, tudo desponta em frases dignas de grupos misóginos no WhatsApp, tais como: “Mulher morta e marido corno acontece todos os dias”.


Francisco, por sua vez, se mostra como um personagem pouco aprofundado, sofrendo com um Silvero Pereira não muito inspirado. A interpretação faz o mais conhecido maníaco de nosso país ser reduzido a olhares, sorrisos de canto e sobrancelhas arqueadas. Bem longe do magnetismo que se espera de um homem que convenceu dezenas de vítimas a adentrarem nos parques da maior cidade brasileira. Uma atuação tão caricata que impede que qualquer telespectador tenha uma conexão emocional com o nefasto personagem.

A trilha sonora sofre com a mesma falta de sutileza. Apesar de apresentar algumas músicas inesquecíveis da época, a trilha prejudica momentos de tensão. Além disso, não há como os roqueiros mais tradicionais não ficarem um pouco incomodados ao verem o estilo ser excessivamente explorado quando Francisco está praticando ou refletindo sobre seus atos nefastos.


Em resumo, a sensação é que estamos diante de um filme que mira no  “true crime”, mas peca por se afastar da realidade em prol do necessário discurso que o sustenta. Cenas forçadas e didatismo exagerado prejudicam a imersão e o impacto de uma história que, por si só, já é suficientemente brutal. Não à toa, a maioria dos espectadores sairá se perguntando do filme: “Calma, isso aconteceu? Sério? Aconteceu mesmo? Ou eles querem que eu acredite para contar a história que eles queriam que tivesse acontecido?”.


A teoria do cinema deixa claro que toda reprodução audiovisual é uma grande mentira, por jamais conseguir reproduzir os fatos. Não só o cinema, toda narrativa é uma mentira. Sempre. Mas no “true crime”, a mentira tem que ser muito bem escondida.

 
 
 

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