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O Sobrevivente

  • Foto do escritor: Lucas Fernandez
    Lucas Fernandez
  • 20 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Por Lucas e João


Sair de uma sessão de um filme do Edgar Wright sempre me deixa com aquela expectativa de ter visto algo estiloso, ritmado, cheio de personalidade. É difícil não entrar no cinema já esperando cortes milimetricamente sincronizados, transições exageradas e aquele humor ácido que só ele sabe usar. Mas O Sobrevivente (2025), adaptação do livro de Stephen King — o mesmo que virou o filme estrelado por Schwarzenegger em 1987 —, não segue exatamente esse caminho. Ele é estiloso em alguns momentos, sim, tem uma energia característica de Wright em outros, mas também é uma obra que parece travar consigo mesma o tempo inteiro. E, ainda assim, confesso: me diverti mais do que eu esperava.


A história acompanha Ben Richards (Glen Powell), um homem comum empurrado para a beira do abismo. Após perder o emprego, ver sua família afundada em dívidas e não conseguir pagar o tratamento da filha pequena, ele decide se inscrever no reality show mais cruel da história da televisão — um jogo transmitido globalmente em que ele precisa sobreviver por 30 dias enquanto é caçado por assassinos profissionais. É Stephen King sendo Stephen King: distopia, crítica social, e a boa e velha sensação de que tudo no sistema está planejado para esmagar justamente quem mais precisa de ajuda.


O que mais me chamou atenção é que Wright, mesmo sendo um diretor com estilo muito marcado, escolhe aqui um caminho curioso — quase contraditório. Ele abraça o absurdo do programa televisivo com força (como deveria), mas tenta equilibrar isso com um drama familiar que, no papel, seria o coração do filme. Só que esse drama nunca tem espaço para respirar. A urgência de Ben salvar a filha é repetida tantas vezes em diálogos e flashbacks que acaba soando mais como um recurso narrativo do que como uma emoção palpável.

Isso não é culpa do Glen Powell, que entrega uma atuação decente, mas o filme não dá profundidade suficiente ao personagem. Richards é movido por raiva e desespero, mas isso só existe de forma funcional — Wright fala muito sobre o que Ben sente, mas raramente mostra. E esse é um dos maiores problemas do longa.


O ritmo também sofre. A estrutura episódica — Ben foge, luta, encontra alguém, fala sobre sociedade, volta a fugir — se repete tanto que faz a duração de 2h10 parecer maior.


Mas aqui vem a parte curiosa: por mais irregular que seja, O Sobrevivente não é um filme ruim. Em muitos momentos, é até muito bom. Quando Wright abraça o exagero, quando assume a estética grotesca do reality, quando deixa o espetáculo comandar, o filme ganha vida. A crítica ao consumo de violência como entretenimento funciona especialmente bem nesses trechos, justamente por estar embalada em caos e ironia.


Além disso, alguns coadjuvantes brilham mais do que o protagonista. Michael Cera, sobretudo, entrega um personagem estranho, cínico e divertidíssimo que rouba todas as cenas. Josh Brolin e Colman Domingo também fazem seu trabalho com dignidade, mesmo com material limitado.


E aqui eu faço uma confissão absolutamente pessoal: O Sobrevivente é aquele tipo de filme que — e digo isso sem vergonha nenhuma — meu pai veria passando na televisão num domingo à tarde, olharia pra mim e diria: “Isso sim é um filmaço.” E sabe de uma coisa? Ele não estaria errado. Porque o filme acerta justamente nessa camada: ele funciona como entretenimento direto, exagerado, robusto. Ele entrega espetáculo. Ele tem aquela essência de “cinemão pra ver no sofá”, e isso não é demérito nenhum.

No fim das contas, O Sobrevivente é, paradoxalmente, o filme mais fraco do Edgar Wright… e ainda assim um filme que eu gostei de assistir. Ele falha na profundidade, se perde na própria ambição e deixa de explorar temas que poderiam render discussões poderosas. Mas ele também diverte, entretém e tem momentos de brilhantismo visual suficientes para justificar o ingresso.


Talvez eu esperasse mais porque sou fã do diretor. Talvez o livro do Stephen King crie expectativas impossíveis. Ou talvez O Sobrevivente seja exatamente aquilo que pretende ser: um blockbuster nervoso, estiloso e politicamente consciente, mesmo que incompleto. Um filme que, apesar dos tropeços, se mantém de pé — e que, sinceramente, eu veria de novo sem reclamar.

 
 
 

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