Pecadores
- Lucas Fernandez
- 16 de abr. de 2025
- 3 min de leitura

Por J. Z. Antares
Como fã inveterado de cinema, especialmente daquele que mescla o fantástico com o existencial, Pecadores foi uma experiência que me atravessou como uma nota grave num amplificador de válvula no volume máximo: profunda, vibrante e impossível de ignorar. Não é sempre que um filme consegue unir camadas tão densas de emoção, mitologia e estética com tamanha fluidez – e aqui, Ryan Coogler alcança algo que, sinceramente, beira o sublime.
Desde os primeiros minutos, percebi que não estava diante de mais um filme sobrenatural. Não. Pecadores é um thriller que toca o metafísico, que se embrenha na alma dos personagens e, por consequência, na nossa. E sim, posso dizer sem qualquer constrangimento: eu amei esse filme. Amei como alguém que assiste ao retorno de um cometa raro, como alguém que finalmente encontra o RPG dos sonhos ou ouve um disco perdido de um artista lendário.
Michael B. Jordan está simplesmente monumental. O fato de ele interpretar dois irmãos gêmeos – Smoke e Stack – pode parecer, à primeira vista, um recurso dramático já explorado no cinema. Mas o que ele entrega vai além da mera duplicidade. Stack é o trauma não resolvido, Smoke é a tentativa de redenção. Em cada olhar, cada inflexão vocal, cada gesto contido ou explosivo, Jordan nos apresenta dois mundos colapsando em um só corpo. Poucos atores têm essa amplitude. Aqui, ele não está apenas atuando – ele está canalizando algo maior, algo que parece vindo do próprio âmago do filme.
A direção de Ryan Coogler é um verdadeiro espetáculo sensorial. Ele não se limita ao tradicional: ele brinca com o tempo, com a espacialidade, com a luz e com o som como se estivesse compondo uma sinfonia visual. O filme começa como um drama intimista, quase documental, no calor sufocante do Mississippi contemporâneo, e aos poucos vai deslizando – quase sem aviso – para um terror carregado de simbologia ancestral. É um processo hipnótico. O horror não salta da tela: ele se infiltra, contamina, se espalha como um mofo invisível nas paredes da realidade.
E aí está uma das maiores forças de Pecadores: sua capacidade de perturbar sem recorrer ao choque fácil. O mal aqui não é uma criatura com garras ou dentes afiados. É um eco. Um sussurro. Uma lenda que parece ter se escondido entre as notas de um blues tocado num antigo Dobro – esse instrumento que, no filme, assume quase o papel de um oráculo musical. Aliás, a trilha sonora é um caso à parte. Ela não serve apenas para ambientar: ela narra. Ela clama. Ela possui. Há momentos em que a música literalmente guia a narrativa, conduzindo os personagens (e nós, espectadores nerds encantados) por territórios entre o onírico e o infernal.
Hailee Steinfeld e Miles Caton completam o elenco com performances discretas, mas essenciais. São como satélites em torno do duplo-sol que é Jordan. E o roteiro de Coogler, escrito com precisão quase cirúrgica, nunca deixa que o peso filosófico atrapalhe o envolvimento emocional. Pelo contrário, cada diálogo carrega um simbolismo silencioso. Cada silêncio, uma tensão prestes a explodir.
A fotografia de Autumn Durald Arkapaw é arrebatadora. Cores abafadas, contrastes sufocantes e sombras que parecem ter vontade própria. Há uma cena em que Stack caminha por um campo enluarado, e a própria luz parece julgá-lo. Nessa sequência, eu precisei pausar e apenas respirar. Era arte pura, sem exagero.
Pecadores é uma dessas obras que pedem revisita. Uma experiência que não se esgota nos créditos finais. Fica reverberando. É como um feitiço que nos acompanha ao sair do cinema, que nos persegue nos sonhos, que nos faz questionar a fronteira entre o real e o mítico.
Como nerd que cresceu entre quadrinhos, VHSs de terror dos anos 80 e tardes devorando mitologia comparada, não posso deixar de afirmar: esse filme é uma obra-prima. Ryan Coogler não apenas dirigiu mais um longa. Ele ergueu uma fábula contemporânea que olha para o passado, dialoga com o presente e sugere que os verdadeiros demônios talvez estejam dentro de nós.
Se você gosta de cinema que respeita sua inteligência, que desafia sua sensibilidade e que, mesmo assim, sabe como te prender pela narrativa... Pecadores é obrigatório. Um marco do gênero. Uma obra para ser debatida, revista e – por que não? – cultuada.




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