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Thunderbolts

  • Foto do escritor: Lucas Fernandez
    Lucas Fernandez
  • 1 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura



Marvel Studios reacende a centelha com uma dose inesperada de ousadia emocional e ação com propósito.


Thunderbolts tem gostinho da Fase 1 da Marvel.” Essa foi a sensação que tive ao sair da sala de cinema — e, sinceramente, não esperava dizê-la tão cedo. Com uma proposta arriscada e um grupo formado por personagens tidos como “menores” dentro do Universo Cinematográfico Marvel, o longa surpreende pela competência com que combina ação de alto nível, tensão dramática e um desenvolvimento de personagens digno de destaque. Mais do que isso: ele apresenta uma nova identidade ao MCU, oferecendo um respiro criativo que pode ser o início de uma virada de chave.


No enredo, somos apresentados a uma equipe formada por desajustados e anti-heróis: Yelena Belova, Bucky Barnes, Guardião Vermelho, Fantasma, Treinadora e John Walker. Todos com passados complexos, decisões questionáveis e cicatrizes profundas — tanto físicas quanto emocionais. Reunidos contra a vontade pela implacável Valentina Allegra de Fontaine, o grupo precisa enfrentar não apenas uma missão de alto risco, mas a si mesmos, seus traumas, arrependimentos e o peso de suas escolhas anteriores.


Logo de início, o filme se diferencia por não seguir a fórmula tradicional das “equipes de heróis” que já conhecemos. Não há um ideal claro de justiça, tampouco uma missão inspiradora conduzida por valores elevados. Thunderbolts parte da sombra. Seus personagens não querem salvar o mundo — alguns sequer querem estar juntos. E é exatamente aí que reside sua força. A construção dessa equipe é baseada em atrito, em desconforto, em histórias interrompidas que agora precisam encontrar um novo rumo. A química entre os membros do grupo é acidentada, realista e por isso mesmo fascinante de assistir.


Yelena Belova, interpretada por Florence Pugh, novamente se destaca com seu carisma mordaz e camadas emocionais inesperadas. Sua dor é silenciosa, mas constantemente visível. Já Bucky Barnes, vivido por Sebastian Stan, carrega a densidade de quem nunca teve paz. Ele é o lembrete vivo das consequências de décadas de controle mental e violência. Walker, Fantasma, Guardião Vermelho e Treinadora completam o grupo com personalidades fortes, conflitantes, e todos têm seus momentos de protagonismo — uma conquista notável para um filme com tantos personagens centrais.


A direção de Jake Schreier é certeira ao equilibrar ação e introspecção. As sequências de combate são muito bem coreografadas, e há uma escolha inteligente por planos mais abertos e lutas menos dependentes de CGI — algo que torna tudo mais crível e, em certos momentos, até visceral. Mas o verdadeiro mérito está em como a ação sempre tem um propósito narrativo. Cada confronto, fuga ou ataque serve para desenvolver os personagens ou aprofundar seus dilemas. Não se trata de lutar por lutar; há sempre algo mais em jogo.

E falando em dilemas, o roteiro acerta ao explorar a ideia de redenção de maneira madura. Nenhum personagem se transforma do dia para a noite, e o filme evita cair no erro de oferecer “cura” rápida para traumas profundos. Ao contrário, ele abraça a imperfeição.

Mostra que evolução é um processo doloroso, cheio de recaídas, e que às vezes, o melhor que alguém pode fazer é tentar ser um pouco menos destrutivo do que foi ontem.

Visualmente, Thunderbolts apresenta um tom mais sóbrio, quase tático. As cores são mais frias, os cenários mais realistas, e a fotografia contribui para reforçar essa atmosfera de espionagem, conspiração e perigo constante. Há momentos em que o longa flerta com o suspense político, sem deixar de lado seu DNA de super-herói. Essa estética contida casa muito bem com o tema do filme, que trata de personagens à margem do heroísmo clássico.

O ritmo é outro ponto positivo. Apesar de conter cenas contemplativas e silêncios significativos, o filme nunca se arrasta. Pelo contrário: há um senso de urgência que acompanha toda a narrativa, amplificado pela ideia de que qualquer um desses personagens pode, a qualquer momento, tomar uma decisão drástica. O clima de imprevisibilidade é constante — e bem-vindo.


Um dos destaques mais impactantes do filme é uma sequência em que os Thunderbolts deixam de lado o conflito principal para salvar civis em perigo. É um momento simples, mas que diz muito. Ao escolher mostrar esses personagens agindo com compaixão — mesmo que hesitante — o filme oferece humanidade a quem estava à beira da caricatura em outras produções do MCU. Isso os torna tridimensionais, críveis. É nesse tipo de detalhe que Thunderbolts se diferencia de tantos outros títulos recentes da franquia.


É claro que o humor não está ausente. A Marvel sempre soube equilibrar drama e leveza, e aqui isso é feito com mais cuidado do que nas entradas anteriores. As piadas surgem naturalmente, quase como escudos emocionais dos personagens, e nunca enfraquecem o peso das cenas sérias. O resultado é um tom coeso, que respeita o espectador e os temas tratados.


Há também duas cenas pós-crédito — ambas eficazes. A última, em especial, traz implicações intrigantes para o futuro do MCU, além de dar uma recompensa emocional para quem acompanhou a jornada até aqui. Sem revelar nada, posso dizer que a promessa de novos rumos para o universo Marvel parece mais real do que nunca.

Thunderbolts funciona como um divisor de águas. Não apenas por sua qualidade técnica e narrativa, mas por sinalizar uma mudança de foco dentro do MCU. Em vez de depender de megaescalas cósmicas e ameaças interdimensionais, o filme mostra que as histórias mais potentes ainda podem ser aquelas centradas nas fragilidades humanas. No fundo, é sobre pessoas tentando reparar o que fizeram — ou tentando entender se isso ainda é possível.

Para quem, como eu, se encantou com a Marvel lá atrás, na construção da Fase 1, há algo de familiar aqui. Uma energia crua, uma urgência narrativa, uma vontade de explorar personagens antes de explorá-los como ícones. Há espaço para silêncio, para dúvida, para falhas. E isso faz toda a diferença.


Em um universo tão vasto e frequentemente espetacular, Thunderbolts mostra que ainda há espaço para histórias mais contidas, porém carregadas de significado. Um filme que, sem abandonar o entretenimento, escolhe mergulhar fundo em seus personagens. E no fim, talvez isso seja o que nos conecta mais ao que nos fez amar os super-heróis em primeiro lugar.

 
 
 

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